As proezas do “Chico”

As proezas do “Chico”

Não tinha nome, pelo menos que o fizesse passar à posteridade.

É possível que pudesse chamar-se Chico, como todos os outros símios lá de Angola; mas, já lá vão quase trinta anos e, dele, só nos recordamos de o ver trepar até à grimpa do mastro, depois de alguma partida feita a marinheiros, ou a fugir às investidas pouco afectuosas do Caminha.

Era um macaco pequeno, agarotado, mostrando uma alva fiada de dentes quando lhe retirávamos o relógio, que pressuroso e inquieto havia levado ao ouvido, ou lhe negávamos o direito de nos puxar os cabelos ou de pretender desabotoar-nos o casaco.

Todos o estimavam. E não raro era vê-lo ao colo de um velho marinheiro, dormindo tranquilamente, as grandes pálpebras esbranquiçadas velando o seu velhaco e o focinho preto, muito escuro, imprimindo-lhe um tal ar de beatitude e de ilimitada confiança que, trazendo talvez pungentes recordações de “bebés” tão distantes, marejavam os olhos da sua ama improvisada…

São como crianças, esses curiosos animaizinhos, travessos quando têm saúde, meigos se nisso vêem conveniências e confiados quando reconhecem simpatia na gente que os rodeia.

O nosso Chico era travesso como poucos. Não vinha a ré, por hábito ou por receio do despenseiro, que parecia não ser muito do seu agrado e só ter simpatias pelo Caminha, o seu inimigo irredutível.

Um dia, porem, o macaquito sentiu que despertava nele aquela curiosidade que levou um seu possível antepassado a engolir a maçã… De um pulo alcançou o tombadilho e, em dois sltos, introduziu-se por uma escotilha que encontrou, feliz ou infelizmente, aberta.

Espectáculo novo e atraente para o seu instinto destruidor: o camarote, onde se encontrava, estava repleto de livros e de inúmeros papeis grandes e brancos!

Felicidade suprema! Seriam, talvez, os planos de combate para a próxima guerra!...

O Chico era pacifista, ou estaria, possivelmente, a soldo de uma potência estrangeira… Deitar-se aos livros e aos papeis, rasga-los nervosamente, roer as capas e atirar ao chão tudo o que lhe pareceu inútil ou inquebrável, foi obra de um momento.

Depois… fugiu.

À porta achava-se o comandante Filomeno, furioso como é de ver.

Mais tarde, em viagem, saltando de estai para brandais e de brandais para adriças, o Chico, caiu ao mar, a gritar como um possesso.

Filomeno, esquecido da travessura, parou o barco: mas já um marinheiro, talvez o das saudosas recordações, se havia lançado à agua em socorro do pobre símio.

Nada de histórias: o Chico, em vez de por as mãos na cabeça – como as avozinhas contam aos serões aos seus netinhos – nadava como um danado em direcção ao seu valor!...

E no seu olhar malicioso poderia ler-se. É o pões, as mãos na cabeça…

 

Henrique Maria Travassos Valdez

1º Tenente