Militares querem abrir um hotel no hospital da Estrela

15-02-2016 11:42

O projeto do Instituto de Ação Social das Forças Armadas inclui ainda um posto clínico, centro de dia, creche e colónia de férias

Criar um hotel de três estrelas para turismo militar nacional e estrangeiro no centro de Lisboa, em instalações com décadas de história castrense e vista para a Basílica da Estrela é o projeto que está na mesa do ministro da Defesa e foi apresentado pelo Instituto de Ação Social das Forças Armadas (IASFA).

A proposta envolve outras valências de apoio social à família militar (dos bebés aos idosos): creche e berçário, jardim-de-infância, posto clínico, colónia de férias, centros de reabilitação física e de dia ou de tempos livres - a instalar nos edifícios do antigo hospital militar do Exército junto ao Largo da Estrela, onde seria instalada a sede do IASFA, e por trás da basílica. Está previsto um investimento global de 14,5 milhões de euros.

Os edifícios - há anos objeto de interesse do setor privado - seriam cedidos pelo Ministério da Defesa por algumas décadas (30 ou 40 anos, em regra). E, como a proposta mantém o uso militar anterior, respeitará o Plano Diretor Municipal (PDM) de Lisboa, admitiu uma das fontes ouvidas pelo DN.

Os 106 mil beneficiários do IASFA formam o universo de utilizadores desses serviços, mas o número potencial é superior. É que, por um lado, a valência de turismo social abrange as instituições estrangeiras congéneres que integram o Comité de Ligação Internacional dos Organismos Militares Sociais (rede internacional de turismo social militar). Por outro, a sociedade civil também pode usufruir do hotel a preços de mercado, para dessa forma garantir uma taxa de uso máxima, referiu outra fonte.

A par dos resultados de exploração pelo IASFA do chamado "hotel de trânsito militar", do museu e do aluguer de espaços - incluindo a capela - no antigo convento fundado em 1573, ou dos serviços sociais e de saúde junto à basílica, a proposta prevê libertar três imóveis do instituto "com grande potencial para gerar receita própria".

Esses edifícios são o Palácio Magalhães - onde funcionou a Cooperativa Militar - na Rua de São José (Lisboa), a sede do IASFA (Picoas, Lisboa) e o ex-Lar Académico Militar (Oeiras). O primeiro tem capacidade para 50 a 70 quartos e aí já funciona um restaurante; o segundo pode ser arrendado; o último um resort turístico, a 300 metros da praia de Santo Amaro.

Quanto aos edifícios a libertar em torno do Largo da Estrela - ao abrigo da Lei de Programação de Infraestruturas Militares e identificados como prédios militares n.º 39 e n.º 40 -, estima-se que o investimento seja de 14,5 milhões de euros, metade feito pelo IASFA (7,3 milhões) e o restante com fundos comunitários (7,1 milhões).

Segundo os autores do projeto, os resultados de exploração dos imóveis atingirão os 1,9 milhões de euros anuais. Isso rentabilizará o investimento em quatro anos - ou em sete anos e meio, no cenário em que não prevê o acesso a fundos comunitários.

Com o IASFA a debater-se com fortes problemas financeiros - traduzidos no que muitos beneficiários do centro de apoio social de Oeiras dizem ser uma quebra da qualidade dos serviços prestados -, o plano estratégico prevê a rentabilização do seu património imobiliário: venda ou arrendamento.

Isso tem suscitado fortes reservas - nomeadamente de oficiais - por entenderem que esse património foi construído só com verbas dos beneficiários. "O IASFA é nosso, foi com os descontos e quotas dos militares que se construiu" o que "é apetecível para muita gente", afirmou o presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA).

"Não colocamos em causa a competência" dos civis nomeados para gerir o IASFA, mas "o que entendemos é que podem estar lá sob o nosso mando" e com o principal chefe militar "à cabeça", adiantou o coronel Manuel Cracel.

Esta afirmação choca com o facto de o IASFA não fazer parte das Forças Armadas. Depois, a forma como aquele património imobiliário surgiu parece corresponder a um mito: os descontos e quotas dos militares - só obrigatórios para todos nos anos 1980 - atingiram montantes que permitissem adquirir tantos imóveis?

Questionado sobre isso, o presidente da AOFA respondeu com uma nuance: "No mínimo contribuíram com uma quota-parte muito significativa."

Também é possível verificar que alguns edifícios foram adquiridos com os impostos de todos os portugueses, como é o caso do referido Palácio Magalhães - ou Palácio de São José: o edifício construído no século XVIII "foi adquirido pelo Ministério da Guerra em 1948 à marquesa de Santa Cruz dos Manuelles", informa a câmara.

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