III) O cacilheiro indigno do nome … por Manuel Gonçalves de Carvalho

15-08-2015 10:44

Decorria o ano de 1983. Vivia-se um grande entusiasmo e empenho no CSA: tinha-se acabado de efectuar o contrato de promessa de compra e venda de metade do edifício para instalar a Delegação do nosso Clube, no Feijó, por dez mil e quinhentos contos, mau grado haver apenas cerca de cinco mil contos, metade dos quais era proveniente de empréstimos dos associados.

O que fazer então?

● Revitalizar os empréstimos;

● Transformar os empréstimos em doações;

● Realizar sorteios;

● Adquirir e vender merchandising, como agora, inexplicavelmente, parece ser “fino” dizer-se;

● Criar bancas de vendas e contactos com os associados nas várias unidades, diariamente e durante a hora de almoço;

● Promover sessões de esclarecimento nas unidades, em relação ao projecto “delegação”;

● Realizar eventos recreativos e sociais;

● Reforçar o número e a periodicidade de boletins informativos.

Como é evidente a Direcção não tinha mãos a medir. As preocupações eram “mais do que muitas”. Para reforçar os poderes da Direcção e aumentar a solidariedade das suas decisões realizavam-se reuniões quinzenais de todos os corpos sociais.

E foi assim que, após uma dessas reuniões, reunião difícil e acalorada, devido a um ou outro elemento dos corpos sociais que, com alguma razão, manifestava a preocupação de não se conseguir o dinheiro para a escritura (e, portanto, com a eventual perda do dinheiro de sinal), se passou esta pequena história com o presidente da Direcção do biénio de 1983 / 85.

“Com a cabeça ainda azamboada e cheia de preocupações pedi, no bar, um bagaço do nosso fornecedor do Cartaxo – o melhor bagaço que se bebia na altura em Lisboa - bebendo-o numa virada, e fui atender os camaradas, fartos de esperar, para lhes fornecer material – o tal de

merchandising - para vendas nas unidades militares e distribuir-lhes os boletins acabados de fazer na madrugada anterior pelo saudoso camarada Rebola e a sua equipa (recorde-se que estes boletins eram dactilografados em stencil; um trabalhão!) E assim, já quase meia-noite, depois de apurado o dinheiro do dia, fechou-se a sede e desloquei-me para o antigo cais do Cais Sodré para apanhar o cacilheiro.

No cais de embarque, além dos trabalhadores que teriam saído de turno, encontravam-se muitos benfiquistas, efusivos, regressados da Luz após uma vitória de um jogo importante. Estranhei que, após a entrada nas cancelas onde se obliteravam os bilhetes, estivesse um “pica bilhetes” junto ao portaló, de tal modo que o tipo que ia à minha frente, de forma desbragada, teve este desabafo:

“Que po… é esta, entramos ali pelas cancelas como gado a entrar no curral e agora ainda temos que mostrar o bilhete!” O revisor não gostou da reacção e picou o meu bilhete sem sequer olhar para o provocador.

Já sentado no meu lugar habitual, abri a mala – tipo James Bond – e retirei o Diário de Lisboa para ir lendo as mais grossas. Navegou-se e sem olhar para o relógio, guardei o DL, olhei pelas janelas de ambos os bordos para ver qual era o bordo por onde o cacilheiro ia atracar, e, embora a visibilidade fosse muito má, mas não consegui ver a conhecida iluminação de Cacilhas.

Alarmado, vim para o convés e constatei que apenas via a escuridão da noite. Amaldiçoei a minha distracção e comecei a pensar o que poderia fazer com apenas uns trocos no bolso que não chegavam a vinte escudos. Revoltei-me, também, contra aquele cacilheiro indigno do nome, pois aquele deveria ser algum barreirense ou montijense, conforme o local para onde se dirigia. Nisto, abeirou-se um trabalhador, já de alguma idade, de lancheira, que me interpelou:

- Vê-se que o senhor está enganado?

Contei-lhe o meu infortúnio e ele lá me foi dizendo que não era o primeiro a enganar-se e a culpa era da falta de informação eficaz no cais. Aquele suposto “cacilheiro” afinal dirigia-se para o Montijo e que aquela carreira tinha sido constituída, há cerca de uma semana, devido a um abaixo-assinado de utentes do Montijo, ficando à experiência durante um mês.

Como eram diferentes os tempos em que a cidadania se fazia sentir. Hoje os nossos governantes parecem que querem dar a machadada final nos transportes públicos ao serviço do povo trabalhador, mas estão enganados porque a cidadania vai voltar a fazer-se sentir.

Entretanto, eu não parava de pensar na minha vida e se calhar o melhor era apresentar-me na Base Área do Montijo e talvez me resolvessem o problema (convém lembrar que na altura não havia telemóveis nem Multibanco), mas o meu interlocutor, cheio de boa vontade para me ajudar, não parava de falar:

- Eu dou-lhe uma ajuda a desembarcar antes de eles colocarem a prancha e o senhor será o primeiro a apanhar um dos poucos táxis que aqui normalmente estão, quase sempre com fregueses certos. Com sorte, haverá algum que o leve a casa.

Já sentado no táxi que me iria transportar do Montijo para a Sobreda da Caparica e aflito por não ter dinheiro para o respectivo pagamento, “rezava” para que a mulher tivesse algum dinheiro em casa. Mas já a ouvia a barafustar contra as minhas distracções, contra o Clube e por chegar tão tarde (aproveito a oportunidade para homenagear as mulheres dos nossos associados, com responsabilidades no Clube, por terem e continuarem a ter a compreensão do nosso esforço. Sem elas tudo seria muito mais complicado.)

Depois de muita conversa com o taxista, lá foram identificadas as terras de onde éramos naturais: ele de Évora, estabelecido na praça do Montijo há um bom par de anos, comentava a destruição da reforma agrária; e eu, de Torres Novas, da aldeia de onde era natural o General Humberto Delgado, referia que a minha aldeia tinha sido, no concelho, a grande lutadora na luta das oito horas de trabalho, nos idos anos 30, com muitas prisões pelo meio.

Estabelecida alguma cumplicidade entre nós, estava na hora de lhe contar a verdade aflitiva da minha situação financeira para lhe pagar.

- Não se incomode com isso! Há sempre uma solução para tudo!

E houve. A minha mulher tinha dinheiro suficiente para pagar a minha dívida de oitocentos e tal escudos (naquele tempo era muito dinheiro para o nosso parco vencimento) e despedimo-nos, com amizade, ficando com o contacto do taxista, a fim de o convidar para a inauguração da Delegação nº 1, no Feijó, tendo vindo a concretizar-se a sua presença nesse dia de festa, com grande satisfação da minha parte.

Como é sabido, embora pese todas as peripécias de cacilheiros e outras mais, o CSA acabou de fazer a escritura da Delegação, no tempo previsto e o dinheiro em falta foi conseguido, mercê do empenho gigantesco e invejável de todos os seus associados.

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